Introdução: Você Pensa a Sua Carreira ou Ela Acontece com Você?
Você já sentiu que sua carreira segue um roteiro escrito por outra pessoa?
“Deixa a vida me levar, vida leva eu…”
(Música de Serginho Meriti e Eri do Cais, eternizada por Zeca Pagodinho)
Ou que, em um mundo que muda tão rápido — o tal mundo BANI —, a sua vida profissional parece mais uma sucessão de eventos imprevisíveis do que um caminho escolhido por você? Essa sensação de estar à deriva é mais comum do que se imagina, gerando uma ansiedade constante sobre o futuro. Muitos de nós seguimos um caminho pré-definido ou simplesmente reagimos às oportunidades que aparecem, sem um senso claro de direção.
Existe, no entanto, uma abordagem mais humana e intencional para construir uma trajetória profissional, chamada Life Design. Não se trata de uma fórmula mágica com respostas prontas, mas de uma profunda mudança de perspectiva: de espectador a autor da sua própria história. É um convite para abandonar a busca por um “plano de carreira” rígido e, em vez disso, projetar uma vida na qual o trabalho se encaixe de forma coerente e com significado.
A partir do meu aprendizado durante a pós em Psicologia Positiva, na PUC-RS, teuni alguns insights sobre nova forma de pensar nossa vida e carreira. Espero que te ajude a se tornar o protagonista da sua vida, e não apenas um personagem em uma história pré-escrita. Prepare-se para questionar velhas certezas e descobrir um caminho mais autêntico para o seu futuro.
Cinco Ideias Inspiradas no Life Design que Vão Mudar a Forma como Você Enxerga Sua Carreira
- Sua carreira não é uma escada, é a história que você escreve
Por muito tempo, a carreira foi vista como uma escada: uma trajetória linear e previsível, onde o objetivo era subir degrau por degrau. Esse modelo não faz mais sentido. O Life Design propõe uma metáfora muito mais poderosa: a carreira como uma construção narrativa. A visão de Mark Savickas, um dos principais autores da área, define carreira como o “processo de impor significado pessoal às memórias passadas, experiências presentes e aspirações futuras, entrelaçando-as em um padrão que retrata um tema de vida.”
Essa mudança de perspectiva é libertadora. Em vez de se preocupar apenas com o “próximo degrau”, o foco passa a ser a criação de uma história de vida coerente, que conecte o passado, o presente e o futuro em um enredo com significado pessoal. Você deixa de ser um personagem em uma trama corporativa para se tornar o protagonista da sua própria narrativa.
“As histórias explicam o passado, nos orientam no presente e também guiam o nosso movimento para o futuro.”
- O objetivo não é se encaixar em um trabalho, mas encaixar o trabalho na sua vida
Esta é talvez a inversão mais radical da lógica tradicional. Historicamente, as pessoas ajustavam suas vidas para se adequarem às demandas de um emprego. O paradigma do Life Design vira essa equação de cabeça para baixo: primeiro, você projeta a vida que deseja viver de forma ampla; só então pensa em como o trabalho pode se integrar a esse projeto de forma saudável. A questão central deixa de ser apenas “o que eu vou fazer?” para se tornar “como eu vou lidar com as mudanças relacionadas à minha carreira?”.
Essa ideia não é apenas sobre equilíbrio, mas sobre construir uma vida tão robusta e autodefinida que possa suportar as transições e a instabilidade do mercado. Uma carreira saudável não é aquela que exige sacrifícios, mas sim aquela que se alinha e enriquece sua vida como um todo. O trabalho passa a ser parte de um projeto maior, e não o centro em torno do qual todo o resto deve orbitar.
“É como o trabalho encaixa na vida, e não o contrário.”
- Adaptabilidade é o seu novo superpoder (esqueça a “vocação” imutável)
A ideia de uma “vocação” única a ser descoberta é uma armadilha em um mundo imprevisível. A rigidez se tornou uma desvantagem. O recurso mais essencial que um profissional pode desenvolver hoje é a adaptabilidade de carreira, uma competência composta por cinco dimensões que funcionam como uma bússola interna para navegar pelas transições.
- Preocupação: A capacidade de pensar e planejar o futuro com intenção. A pergunta a se fazer é: “Eu tenho um futuro?”. Isso te convida a olhar para frente, não com ansiedade, mas com atitude de planejamento.
- Controle: A consciência de que você é o responsável pela sua trajetória. A reflexão aqui é: “A quem pertence o meu futuro?”. Assumir o controle é assumir o protagonismo das suas escolhas.
- Curiosidade: A exploração ativa de novas possibilidades. Pergunte-se: “O que eu quero fazer com o meu futuro?”. Manter a mente aberta para o desconhecido é o que revela novos caminhos.
- Confiança: A crença na sua capacidade de alcançar seus objetivos. A questão é: “Eu consigo fazer o que quero com esse futuro?”. É a autoeficácia que te impulsiona a agir.
- Cooperação: O componente relacional da adaptabilidade. Refere-se a como você interage e colabora com os outros, construindo uma rede de suporte social essencial para a jornada.
Desenvolver essas competências é mais libertador do que buscar uma única resposta, pois te prepara para lidar com qualquer desafio que surja no caminho.
- Seus heróis de infância podem revelar mais do que um teste vocacional
O Life Design utiliza técnicas narrativas profundas para o autoconhecimento. Uma das mais reveladoras é a análise dos seus heróis de infância. O exercício é simples: quem eram as figuras que você mais admirava? Podem ser personagens de livros, filmes ou figuras públicas.
O passo seguinte é analisar por que você os admirava. Alguém que admirava o Zorro, por exemplo, provavelmente não sonhava em ser um espadachim, mas sim em “lutar pelos ideais” ou “ajudar os outros”. As palavras que você usa para descrevê-los — “corajoso”, “criativo”, “justo” — revelam seus temas de vida e valores mais profundos. Juntas, elas formam um “lema” ou um “guião” para a sua identidade, uma bússola muito mais autêntica do que muitos métodos tradicionais.
“o que é mais verdadeiro que a verdade? a história”
- O maior especialista na sua carreira é… você
Embora um orientador de carreira seja um especialista no processo, a pessoa que busca ajuda é a maior autoridade sobre si mesma. O papel do profissional de Life Design não é dar respostas prontas. Em vez de seguir um modelo prescritivo, onde um especialista oferece um diagnóstico, a abordagem é um processo de co-construção.
Trata-se de um diálogo colaborativo, uma relação dialógica, na qual o conselheiro atua como um facilitador que ajuda a pessoa a narrar, ouvir e reconstruir sua própria história para que ela encontre suas próprias explicações e caminhos. Essa visão devolve a agência e a responsabilidade ao indivíduo, transformando o aconselhamento em uma jornada de empoderamento.
“O conselheiro é especialista no processo, mas o cliente é especialista nele mesmo”
Qual Será o Próximo Capítulo da Sua História?
A abordagem do Life Design nos convida a uma mudança fundamental: abandonar o mapa de uma carreira previsível, que já não existe, e pegar a bússola da construção de uma vida com propósito. É sobre deixar de ser um personagem coadjuvante na história dos outros e assumir com coragem o papel de autor da sua própria trajetória. As cinco ideias apresentadas são mais do que conceitos; são um chamado à ação para resgatar sua agência, projetar ativamente uma jornada significativa e, acima de tudo, começar a escrever.
Se sua carreira é a história que você escreve, qual é a primeira frase do próximo capítulo que você começará a escrever hoje?
Se quiser se aprofundar no tema, recomendo o livro O Design da Sua Vida, como criar uma vida boa e feliz, de Burnett & Evans.











